Eram quase uma da tarde e ela acabara de acordar, seus olhos pesados de sono, sua cabeça ainda não raciocinava muito bem.
Noite passada ela passara a em claro, como das outras vezes, mas dessa vez foi pior.
Era apenas uma da manhã e seus pesadelos voltaram a assustá-la, a noite fora longa para poucos pensamentos “férteis”. Não conseguia ler, trabalhar, compor, dançar e muito menos se concentrar. Ela já havia se acostumado com aquilo, desde que ele se foi suas noites jamais foram as mesmas. Seus sonhos se transformavam em pesadelos em um piscar de olhos e a partir daí, já era, mais uma noite acordada.
Há três dias recebera um pacote, não tivera coragem de abri-lo.
A falta que ele fazia, a ausência só dera lugar à saudade. Saudade que quanto mais tempo de duração tinha, mais crescia, mais forte ficava.
Ela ainda estava de pijama, não tomara banho como de costume. Abriu o pacote sem perceber, continha um CD, ela olhou em volta e quando deu por si estava só. Estava assim desde que acordara, sua família estava comemorando a volta, que para ela era o aniversário de um ano de depressão, estava sem um pingo de vontade de comemorar.
Ligou o som e colocou o CD, foi para a cozinha com o controle remoto em mãos. Quando o CD começou a rodar ela quase caiu, era a voz dele, na musica que eles haviam feito juntos, ela se sentou e começou a escutar atentamente.
O conteúdo do CD a havia deixado com um misto de um monte de sentimentos: raiva, alegria, esperança e tristeza. Ela não sabia o que fazer.
Depois que a gravação acabou, ela achou que acabou, ela se assusta ainda mais.
Havia uma “mixagem” da frase que ela mais gostava de ouvir da boca dele quando estavam juntos. Ela quase caiu da cadeira quando escutou, seu coração se alegrou e ela não se cansava de escutar. Escutava e voltava, escutava e voltava.
A meia hora daquele local um telefone toca:
— Oi!
— Aqui, você vai em casa?
— Se precisar?!
— Pega os violões lá, eu os esqueci!
— Pego sim!
— E vê se tem alguém por lá ainda e arrasta pra cá.
— Tá, eu levo sim.
Ele pegou o carro e foi em direção ao apartamento.
Ela inda estava escutando a “mixagem” da gravação, era a primeira vez que ela deixava suas lembranças com ele correrem soltas: as brigas, as brincadeiras, os beijos e as declarações.
Ele entrou. Escutou o som e resolveu não chamar, entrou na cozinha e seu coração bateu mais forte, prestou atenção no que ela estava escutando e reconheceu sua própria voz na gravação.
Aproximou-se dela, para tentar tocá-la, ela de costas pra ele nem percebera a movimentação.
Mantendo-a de costas pegou o controle remoto das mãos dela e desligou o som, ela virou assustada. Frente a frente com ele sua boca não dizia mais nada, suas pernas tremiam, seu coração batia cada vez mais forte e sua respiração estava ficando ofegante.
Ele chegou mais perto dela, a casa estava em silêncio e o único som que o casal escutava era a batida do coração um do outro que estava cada vez mais forte.
Os olhos dela se encheram de lágrimas e quando iam cair face abaixo ele enxugou, o toque dele no rosto dela, ao invés de lagrimas colocou um sorriso nos olhos azuis dela.
Sua mão correu pelo rosto dela em um toque carinhoso como o vento, os olhos azuis dela se encontraram nos olhos azuis dele. Em silêncio os dois chegaram mais perto um do outro e em um encaixe perfeito, como em uma coreografia ensaiada os dois se abraçam, seus olhares não se desgrudavam, e como se houvesse tido um chamado ele a beijou, com carinho.
Ele parou de beijá-la ela abriu um lindo sorriso ainda de olhos fechados.
Sem que ela abrisse os olhos ele a beijou novamente, agora com desejo.
Seus corpos como se nunca houvessem se separado antes, conversaram como nunca, naquele apartamento silencioso. E assim enfim foram um do outro...