É inverno em mim. E mesmo que o frio não venha de fora, exala de dentro de mim. É tempo de renovação em mim, toda as minhas proteções caíram há meses, e eu estou apenas nua, exposta, deixando que assim como minha vida, meu corpo balance de acordo com o vento e com o sons que se ouve ao meu redor, sejam dos carros, sejam dos pássaros, sejam dos rádios dos vizinhos preenchendo os vazios que eu sei, não há só em mim.
Despiram me de minhas defesas, rasgaram-nas e no lugar me inrustiram de mentiras, medos. Queimaram minha primeira pele de lembranças, as marcas que expõem e contam minha estória, no lugar, nada. Nenhuma lembrança, nenhuma estória.
Arrancaram meu chão. Me mudaram de lugar, me colocando em outro hábitat, para que, segundo eles, eu aprenda a viver do jeito que devo. Colocaram-me no frio, calor, junto a outros tipos de pólen, longe de quem eu sou de verdade. Longe dos que amo.
É inverno dentro e fora de mim. Há tempos é tempo de reclusão. É tempo de aprender a ser forte, à ter paciência e a buscar forças da terra em que me plantaram, buscando então uma ligação que pode ser ou minha salvação, ou minha perdição.
É tempo de buscar certezas, de auto-afirmação. É tempo de esperar, um dia vai chegar a primavera e o verão.