quinta-feira, 11 de junho de 2009

No Apartamento

(Dentre as várias coisas que escrevo, de vez em quando, sempre aparece aquela vontade de escrever cenas esporádicas do cotidiano, essa é uma das que eu escrevi, nem sei em que gênero literário isso se enquadra, mas resolvi jogar isso aqui também.) Espero que gostem.


Entraram no prédio, um prédio simples, mas bem conservado. No elevador ela apertou o botão equivalente ao décimo quarto andar, onde morava. Ele só acompanhava, tímido, dizia poucas palavras.

Ao sair do elevador, seguiu para a porta da entrada do apartamento, onde colocou a chave na maçaneta. Entraram. O apartamento em si era simples, mas havia ficado aconchegante, um pequeno toque de requinte e de gosto de uma design formada o deixou como ela mesmo se referia brincando, um palacete, não era grade, pouco imobiliado, os moveis que havia pareciam mais obras de arte contemporânea, nada extravagante demais, simples, mas como ele mesmo disse:

— Diferente! — Ele olhou pra tudo, reparava cada centímetro do espaço onde ele estava. Ainda proferia poucas palavras, mas naquele momento não precisava de muitas. Sentia-se numa mostra de artes, onde só é preciso observar.

Ela não estava no mesmo lugar que ele, já estava em seu quarto colocando algumas coisas no lugar, não tinha nenhuma intenção de levá-lo lá, mas não gostava de suas coisas bagunçadas, desde pequena obteve o que ela chama de pequena “irritação com coisas irritantes”, o que para todos a sua volta não era nada mais que perfeccionismo. Arrumou. Foi até seu ateliê e ligou seu computador, deixou-o ligando e voltou para onde ele estava, ainda observando.

— Quer tomar algo? — Disse ela voltando para a sala.

— Não, obrigado.

— Então vamos, se não fica tarde pra você ir pra casa. — Disse ela olhando pra seu relógio de pulso.

Ele fez sinal que sim, e foram, ela foi na frente e ele a seguindo, olhando disfarcadamente pra tudo, como se quisesse descobrir algo escondido. Entraram no ateliê o computador já estava ligado, como não havia de ser, um senhora montagem no fundo de tela do monitor.

— Quem são? — Perguntou ele, quebrando o silencio que ainda insistia em reinar.

— Pessoas importantes pra mim... Família, amigos... Lugares.

Ele fez um movimento como quem assentiu e entendeu, olhava pra os movimentos precisos dela como uma câmera que não queria perder nenhum movimento.

Ela estava concentrada no programa, quando de repente, como quem acordasse de um transe, olhou pra tudo a seu redor, estava procurando algo, ele não sabia o que era e continuava observando.

— Se importa se eu colocar música?

— Nem um pouco! —Disse ele, abrindo um lindo sorriso.

Ela se levantou e abriu a porta do armário, olhou, olhou de novo e não viu o que estava procurando.

Ele que estava encostado na beirada da mesa da maquina se levantou e impressionado disse rindo:

— Nossa, você tem uma coleção de CDs maior que a minha, isso não pode!

— Ah! Tudo bem. Escolhe um CD aí porque eu não estou encontrando o que eu quero, deve ter ficado na empresa. — Disse sentando de novo na cadeira de frente para o micro.

— Ok!

Ela voltou a se concentrar e ele por conta própria colocou o CD no som. Começou Nando Reis, ela nem se importou, cantarolava baixinho as musicas.

Ele se sentou no pufe que tinha em um canto e olhava pra os armários que estavam a sua frente, não sabe quanto tempo ficou lá, de repente se levantou e como se já estivesse em casa, abriu um dos armários que continham livros. Ao mesmo tempo ela se voltou pra ele dizendo:

—Terminei!

Ele se assustou, e com o susto derrubou um dos livros, o único que estava fora do lugar, como se estivesse escondido no meio de tantos outros. Pegou o livro e nem ligou pra o que ela disse, foliou o livro e perguntou:

— Quem é essa autora, eu não a conheço, já vi esse livro nas livrarias, mas nunca ouvi falar nada dela. Juro que eu não entendo o porquê dela assinar com as iniciais. E elas não me são estranhas!

Ela corou, gelou, mudou de cor, no ímpeto decidiu que era hora de alguém saber.

— Onde você acha que já viu essas iniciais, sem ser no livro?

— Acho que lá na empresa, não sei direito. — Disse ele foliando o livro. — Olha com ela escreve bem! “Para Deus, para meus familiares e amigos e para a minha fonte de inspiração, que mesmo sem saber faz do meu âmago complexo uma simples linha de pensamento.” Dedicatória bonita!

Ela se vira de costas, pega um papel uma caneta qualquer e escreve algo no papel, o entrega.

— O que é isso? — Ele olha pra o papel sem entender nada. — Mas é só o seu nome!

— Tem certeza?! Às vezes vemos sem necessariamente enxergarmos o que está bem na nossa frente escancarado aos nossos olhos, às vezes por medo, ou por ignorância mesmo.

— Não te entendi...

— Olha o que está escrito no papel.

Ele olhou para o papel, estava se sentindo o mais burro dos homens naquele momento, olhou para ela e olhou para o livro, parou seus olhos nas iniciais que estavam no lugar do nome da autora, olhou de novo para o papel, arregalou os olhos e soltou uma gargalhada.

— Deus! Como eu sou burro!

— Para com isso, nem é pra tanto, se fosse pra me descobrirem eu tinha colocado meu nome.

— Ah! Mas você não entregou a ninguém seu nome e pediu para comparar com as iniciais!

— Se eu tivesse feito isso, ninguém ia descobrir, não se eu não falasse.

— Ta, mas... Quem é sua fonte de inspiração?

— Se eu falasse teria que te matar.

— Nossa... E ele não sabe até hoje?

— Creio que não, ele é meio... Deixa pra lá!

— E você ta longe dele?

— Nesse momento, nem tanto!

— E porque não fala pra ele?

— Sei lá... Medo!?

— Medo de quê?

— De parecer infantil!

— E se ele sentisse a mesma coisa?

— Meio difícil!

— Difícil nada... E se ele chegasse perto de você e te desse abertura o que você faria?!

— Eu diria que o amo, iria beijá-lo e diria que... Nada. —Se virando para o monitor.

Deu alguns comandos para o programa e se voltou para ele, se assustando com a aproximação. Se levantou, deixando o monitor livre pra que ele visse a obra, mas ele nem ligou.

Aproximou-se dela e com uma precisão nas mãos que só ele tinha a segurou em seus braços e a beijou.

Ela ficou assustada, não esperava essa atitude dele, pensou ter sido muito dada enquanto correspondia o beijo que tanto queria.

Ele a acariciava nas costas correndo toda a extensão dela. Beijava-a com vontade, ele também tinha vontade de dizer o mesmo, mas tinha o mesmo medo que ela o achasse piegas.

[Continua (?)]