Dessa vez, isso vai ter que ser guardado. Isso vai ser um pouco mais difícil, mas não menos importante que tudo que gira em torno dela.
O melhor presente que me deram, a melhor companhia que eu tive, a única pessoa que consegue me deixar irada, mas só de olhar pra mim faz com que eu me contenha e guarde todo o meu rancor pra que eu descarregue em algo que só vai machucar a mim, como parede, porta de quarto, portas de guarda-roupas e por aí vai...
Coisas que eu não esqueço, foi a primeira vez que ela disse “Deda”, uma sensação indescritível. A primeira vez que o namorado veio até a porta de casa, essa eu me lembro, já deve estar fazendo um ano, mas eu ainda me lembro.
Eram quase dez da noite, e eu chegava do que deveria ser do trabalho, eu trabalho até as dezessete, mas isso não vem ao caso no momento. Cansada com o rosto sério eu saí do banco do carona do Civic insufilmado, ninguém nunca sabe que quem está lá dentro é só a mãe de uma das minhas melhores amigas, e adoram ficar falando.
Mas como eu ia falando, ele estava parado na porta de casa, na frente do portão esperando por ela, e eu atravessando a rua, com a cabeça baixa, mas nunca deixando de olhar para o que ele fazia. Ele olhou pra trás, e ficou me observando atravessar. Enquanto ela saía de casa. Com a bolsa a poucos centímetros de arrastar no chão eu atravessava a rua, sempre de cabeça baixa.
Quando subi na calçada levantei a cabeça e o olhar sério, por vários momentos vi medo no olhar dele de encontro ao meu. Estendi a mão e disse:
- Não vai me cumprimentar, cunhado?!
Ele estendeu a mão e logo depois eu entrei. E apesar de a cena toda se desenrolar nele, meus sentidos não saíram dela. Ela me olhava com o certo temor, sabe que eu morro de ciúmes, que sou protetora, que cuido dela mais que cuido de mim, não tirou os olhos de mim, até que eu entrasse, eu pude sentir, e depois me comprovaram. Eu não percebi, mas havia uma terceira pessoa de coadjuvante na cena, e me confirmou tudo, poucos dias depois.
Bom, quase um ano deve ter se passado depois disso, e ontem lá pelas dezesseis horas ela chegou do acampamento, eu estava com tanta saudade, que tive que rir de mim mesma quando ela veio para o meu lado com a mesma frase de sempre. Logo que ela aprendeu a falar “Deda” o resto foi fácil, e é só assim:
- Deda, me dá tanto pra eu comprar isso?
Risos...
Meu feriado acabou assim que ela chegou, agora volto a ser irmã mais velha em tempo integral, com direito a vigiar o portão que sempre quando ela passa fica aberto, e a prestar atenção na luz e no ventilador do nosso quarto, duas horas da tarde e ela ainda esquece aceso.
Mas eu a amo, sinto falta de pensar nela o tempo todo por causa disso, os quatro dias que ela passou fora, foram até vazios, sem ninguém pra cuidar. Sem ninguém pra chamar a atenção. Sem ninguém pra rir das besteiras que só ela fala.
O meu presente, o meu objeto de desejo desde que tinha quatro anos de idade. Aquela que por diversos motivos não sai do meu pensamento, vinte e cinco horas por dia.
Amo você, Fê!